O CASO NODAR
ARTE E VIDA EM COMUNIDADES RURAIS PORTUGUESAS

Preâmbulo

Ouvi contar que outrora, quando a Pérsia
Tinha não sei qual guerra,
Quando a invasão ardia na Cidade
E as mulheres gritavam,
Dois jogadores de xadrez jogavam
O seu jogo contínuo

Em “Os Jogadores de Xadrez”
“Odes” de Ricardo Reis

 

Pontos de Partida

#1

Eis-nos chegados a um tempo em que muitos sentem que quase tudo no que respeita à arte (conceitos, estilos, práticas, media) foi pensado, testado ou discutido. Utilizando a metáfora do jogo, podemos pensar que as peças estão há muito inventariadas, sendo que apenas faltarão experimentar algumas (e derradeiras) combinações.

#2

A própria noção de vanguarda(s) é hoje em dia, e em grande medida, um cliché. Tantos se convocam (ou se fazem convocar pelos media) como fazendo parte de alguma vanguarda ou alternativa, de tal forma que, no limite, podemos ironizar dizendo que são os clássicos os verdadeiros alternativos.

#3

Muitas das práticas artísticas contemporâneas parecem afastar-se dos impulsos sensíveis genuínos, ou por estarem demasiado dependentes de mecanismos de cultura de massas ou por terem na sua génese processos intelectuais ou tecnológicos que funcionam de forma circular ou isolada da realidade mais imediata (íntima, social, politica).

#4

No caso específico das artes contemporâneas mais experimentais (sonoras, visuais ou performativas) é comum ouvir-se entre os seus seguidores ou artistas que os públicos são quase sempre os mesmos, na sua maioria outros artistas ou profissionais da cultura. Mais uma evidência de um sistema alimentado em circuito fechado.

#5

Convocando o mote inicial, pergunta-se: não será também que muitos artistas contemporâneos evidenciam uma indiferença lúdica de quem escuta de longe o fluir do mundo, o qual apenas é notado por “perturbar a concentração dos jogadores”?

 

Reptos

#1

Urge cada vez mais devolver a arte à vida, potenciando a atenção às coisas mínimas, não tanto aos grandes ideais ou teorias. Essa amplificação sensorial do íntimo, do esquecido, do periférico é (ainda) hoje uma necessidade imperativa.

#2

Há que promover esta aproximação entre arte e vida de forma radical: colocando em comunicação directa artistas com realidades / comunidades não abrangidas pelos radares públicos ou políticos (periféricas, marginais, rurais, etc.). Esta radicalidade assenta num retorno a uma certa pureza original da arte, de um sentido menos mediado de forma exclusiva por processos de auto-referência e de crítica.

#3

Arte e especificidade. Um dos paradigmas gerados pelas rupturas estéticas dos anos 60, sujeito ao longo das últimas décadas a diversas mutações e questionamentos. Não obstante, como prática e metodologia, pensamos que é ainda um paradigma válido para a produção de formas artísticas de acção e comunicação com a realidade, contando que alguns dos seus potenciais equívocos sejam acautelados.

#4

O trabalho artístico baseado na interacção com grupos sociais não deve perder de vista a noção de que uma comunidade não constitui uma formação social coerente e uniforme, mas sim um “espectro instável e (em certa medida) inoperante” (na expressão de Miwon Kwon em “One place after another”). Neste sentido, fará mais sentido falar em context-specific art do que em site-specific art ou community-specific art. “Contexto” como uma realidade mais dinâmica e abrangente, menos sujeita a derivações exclusivistas, puristas ou autoritárias.

#5

Neste paradigma, o artista deve assumir o desafio ou risco de trabalhar com contextos novos, a necessidade de adaptação a circunstâncias desconhecidas no contacto social directo, adaptando, reconfigurando e problematizando as linguagens, materiais e abordagens estéticas.

#6

É necessário um afastamento de um certo pendor antropológico (ainda muito presente) em que a comunidade é pensada como uma mera portadora de histórias, de conhecimentos ou de vivências e em que o artista se limita a receber essa informação e a trabalhar a partir dela. O que se deve procurar, ao invés, é um envolvimento mútuo, um encontro entre formas diferentes de viver, conceber e traduzir o mundo. O encontro entre o artista e o contexto não deve pois ser meramente instrumental (no sentido da recolha de elementos para o desenvolvimentos da obra) mas sim algo de orgânico, que se vai construindo naturalmente ao longo do tempo, que se baseia numa vivência quotidiana e comunicativa. É claro que este encontro exige disponibilidade mútua, abertura ao outro com o grau de “tensão” e de imprevisto que lhe são inerentes por natureza.

 

O Caso Nodar

#1

O Nodar Rural Art Lab coordenado pela Binaural/Nodar, situado numa comunidade rural de montanha no centro de Portugal (concelho de S. Pedro do Sul), organiza e produz o desenvolvimento de projectos artísticos exploratórios (com ênfase nas artes sonoras e intermedia), seguidos de apresentações públicas na região. Os artistas residentes, no âmbito do desenvolvimento dos projectos artísticos, são encorajados a estabelecerem interacções com o local, seu espaço geográfico e social, identidade e memória.

#2

Desde Março de 2006 que residiram temporariamente em Nodar mais de 100 artistas contemporâneos (na grande maioria não portugueses), os quais desenvolveram projectos artísticos em ligação com as comunidades locais. Memória colectiva, lendas e mitos, identidade, género e idade, topografia, toponímia, música, património sonoro, paisagem, vegetação, água e fogo, dinâmicas de consumo, artefactos e utensílios, vida e morte, língua, agricultura e pastorícia, foram alguns das realidades que serviram de base para a concepção e realização dos projectos artísticos. Concertos, workshops, exposições, palestras e projecções de vídeo realizaram-se em diversas aldeias da região com interesse e participação crescentes.

#3

Desde que o Nodar Rural Art Lab iniciou a sua actividade, é já patente um acréscimo da auto-estima colectiva e individual nas comunidades da região, pelo facto de os habitantes verem retratados o seu quotidiano, as suas memórias, opiniões e vivências, pelo facto de serem ouvidos, fotografados, filmados e, finalmente, representados nos trabalhos apresentados pelos artistas. É nossa convicção que, ao acompanharem os trabalhos artísticos desenvolvidos, as pessoas (tenham a instrução e a idade que tiverem) intuem os rudimentos dos processos de transformação sensível da realidade em arte e reconhecem essa realidade como sua, o que reduz de sobremaneira o hiato entre a criação e a recepção.

#4

É tão paradoxal quanto irónico como gente rural recebe de forma interessada obras que, na sua maioria, podem ser caracterizadas como experimentais. As mesmas obras que nas grandes cidades poderiam ser encaradas como curiosidade ou de forma indiferente, dado o número de manifestações culturais a decorrer em simultâneo, num tempo em que existe a impressão de que já se viu e ouviu tudo.

#5

Pensamos as residências artísticas enquanto uma troca. O que é que o artista e o habitante local dão e esperam em troca? Será que a relação estabelecida entre eles não está enviesada, pois para o artista é (em princípio) perfeitamente claro o que é que ele(a) necessita das pessoas, mas para estas o mesmo não acontece necessariamente? O artista não terá, pois, uma supremacia sobre o habitante local? Pensar esta problemática é para nós crucial. Este é um exercício que necessita ser aprofundado ao longo do tempo.

#6

O trabalho desenvolvido na nossa região rural (um processo concomitante de criação, documentação e reflexão) exige disponibilidade e tempo e é deliberadamente invisível (ou de visibilidade limitada). Não sendo um objectivo em si, é uma forma de actuar da forma mais livre possível, por processos de contacto individual (quer no que respeita aos artistas, à critica e aos públicos) e com paciência suficiente para se não esperar grandes transformações imediatas. Ou seja, com a mesma paciência do agricultor face aos ciclos de cultivo e às estações do ano.

 

Epílogo em forma de poema-manifesto

Agora que muita da arte contemporânea
parece perder a centelha das emoções verdadeiras,
enredada em mecanismos de auto-contemplação
e de auto-justificação.
Artistas e comentadores num só corpo,
potenciados por um fascínio tecnófilo.

Temos de nos pôr a caminho.
Procurar no outro lado da auto-estrada,
nos arrabaldes do mundo,
os artistas que dizem:
criei esta obra por absoluta necessidade.
Para não me esquecer.
Para me manter à tona do pântano.
Como homenagem ao meu semelhante que luta,
ao sol que nos aquece,
ao sistema de rega que nos alimenta,
ao vinho que nos anima.

Abaixo os laboratórios de artistas higiénicos.
Abaixo as mentes brilhantes enredadas nos seus algoritmos.
Arte não é ciência.
Viva a poeira da estrada.

Queremos braços actuantes.
O meu medium é uma enxada,
precisa de músculo e de suor para funcionar.
Saudemos a virtude das coisas necessárias.
Para não me esquecer.
Para me manter à tona do pântano.
Como homenagem ao meu semelhante que luta,
ao sol que nos aquece,
ao sistema de rega que nos alimenta,
ao vinho que nos anima.

Abaixo os laboratórios de artistas higiénicos.
Abaixo as mentes brilhantes enredadas nos seus algoritmos.
Arte não é ciência.
Viva a poeira da estrada.

Queremos braços actuantes.
O meu medium é uma enxada,
precisa de músculo e de suor para funcionar.
Saudemos a virtude das coisas necessárias.