Ruralidades limítrofes

Uma residência artística de Jorge Pascual e Luís Costa, realizada em oito lugares limítrofes da cidade de Viseu: Pascoal, Abraveses, Santiago, Rio de Loba, Ranhados, Repeses, Orgens e Campo. O trabalho de campo levado a cabo, no contexto de um projeto de criação que a partir de agora se intitula “Ruralidades Limítrofes”, reuniu textos poéticos, crónicas, fotografia, vídeo, paisagens sonoras e oralidade, com o objetivo de construção de vários formatos de apresentação, a serem divulgados em breve.

“O projeto surgiu do interesse em colaborar e de acrescentar a essa colaboração com Luís Costa as nossas diferentes origens e também o nosso desenvolvimento artístico específico. Os objetos ou costumes pertencentes aos habitantes das cidades às vezes desaparecem momentaneamente, para reaparecerem numa segunda vida ou com outros proprietários; Este foi o início do meu projeto “Periferias Caminhadas” San Sebastián / Donostia 2019 subsidiado pela Deputação de Cultura de Guipúzcoa, e foi o pano de fundo para iniciar esta nova colaboração, embora com uma perspectiva diferente, na qual dois plenairistas caminham com o seu olhar, desde o rural em direção ao urbano. Caminhar tornou-se algo excepcional e falar em caminhar é uma proposta de retorno à lentidão, sendo também uma resposta social e política às transformações que ocorrem nos nossos modos de vida.” (Jorge Pascual)

“Onde se traça o limite entre o que é cidade e o que já é outra coisa? Que especificidades pode ter o arco rural de uma cidade de interior, como é Viseu? Como se alterou ao longo do tempo a paisagem dessa fronteira rural/urbano? O que é que os sentidos podem detetar sobre a vida nesses lugares, que hoje são de transição? ”Estas questões resultam de quase vinte anos de observações pessoais em zonas rurais da região de Viseu, associadas a recolhas e a projetos criativos realizados/acolhidos pela Binaural Nodar, sentindo-se uma lenta mas constante evanescência da vida rural mais tradicional e a sua substituição gradual por novas gerações e pelos seus modos devida, já não (tão) assentes na produção de alimentos, o que acaba por modificar a própria paisagem dos lugares. A colaboração com Jorge Pascual acaba por ser uma forma de propor uma perspectiva externa, de alguém habituado a pensar e a criar a partir de “olhares oblíquos”. Ele é aquele que chega de fora e que vê coisas que, muitas vezes, os locais parece já não detetarem, pela força dos hábitos do dia-a-dia.” (Luís Costa)

Jorge Pascual é um poeta e ator espanhol nascido em 1981, de origem leonesa, mas com raízes na zona de El Bierzo (Castilla y León) e a residir desde há vários anosem San Sebastián. Publicou os poemários “Morir de Viento” (ed. Leteo, 2001, Manual de Ultramarinos, 2015) e “Caminan las nubes descalzas”. Também é autor do livro “Me Compras Unas Alas o Me Haces Una Fiesta”, menção honrosa no Prémio de Poesia Eugenio de Nora (2006). Mais recentemente publicou dois poemários expandidos, baseados em caminhadas: “El viento ya está escrito” (2018) e “Periferias Caminadas”(2022). Participa assiduamente em projetos cénicos multidisciplinares como o exercício de improvisação Free Jazz “Jaula 13” com Ildefonso Rodriguez e a colaboração com La Pequeña Victoria Cen no espetáculo de circo poético “Gigante”, entre outros.

Luís Costa (1968). Curador de práticas artísticas contemporâneas, investigador e artista sonoro, educador e animador cultural em contexto rural, no contexto da associação Binaural Nodar. Coordenador do Lafões Cult Lab, um, conceito de pesquisa artística multimédia no território de Viseu Dão Lafões o qual acolheu já mais de 150 artistas sonoros/media e investigadores sociais e ambientais oriundos de mais de 20 países. Coordenador do Arquivo Digital Binaural Nodar, um projeto de pesquisa, catalogação e mapeamento sonoro e audiovisual da memória coletiva dos territórios rurais de intervenção da associação. Coeditou em 2011 o catálogo e CD duplo “Três Anos em Nodar: Práticas Artísticas em Contexto Específico no Portugal Rural”, editou em 2017, o livro + documentário “Várzea de Calde: Uma Aldeia Tecida a Linho” e em 2023 o livro “Dançar com a Raiz: Documentar a Memória dos Ranchos Folclóricos de Castro Daire”. Luís Costa é igualmente autor de dois livros + CD criados na sequência de projetos de educação sonora: “Memória Sonora da Cortiça” com participação de crianças de escolas básicas do concelho de Santa Maria da Feira, junto de empresas e trabalhadores do sector da cortiça e “São Pedro do Sul: Novas Escutas Rurais” a partir de gravações efetuadas por jovens de São Pedro do Sul nas aldeias rurais do concelho.

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