Descrição do projecto

Projecto: Souvenirs de Carmella
Categoria: Performance, Video
Período: Setembro 2007
Evento: Residência Artística (Encontro Fronte[i]ras 07)



Um personagem de ficção, uma comerciante israelita chega à aldeia, abrindo uma pequena banca de souvenirs no centro da localidade, vendendo souvenirs, postais, porta-chaves e pequenas bandeiras. As imagens gravadas nos souvenirs são da própria aldeia, de pessoas que aí vivem e de diferentes momentos captados pelo olho da câmara. A comerciante Israelita falará com os seus clientes na sua língua mãe, a qual é o Hebreu, uma linguagem que é algaraviada para os habitantes da aldeia. O público não sabe que a comerciante é uma actriz.

No meu trabalho pretendo levar as pessoas da região de Nodar a questionarem e a exprimirem o medo de perderem a sua tradição e a vontade e necessidade de a preservarem.

Ao colocar uma comerciante não-nodarense, não-portuguesa e não-europeia a vender memórias de Nodar, pretendo criar um espaço de expressão extrema da situação e conflito que os habitantes de Nodar estão a experienciar. A personagem – uma vendedora muito desenvolta, representa simultaneamente o imigrante que não pertence e que não fala a língua da região e o intruso, aquele que entra no espaço privado da aldeia e ameaça a sua ordem estabelecida.

É interessante para mim ver de que forma a população de Nodar responderá a esta comerciante.


1. Selecção de fotos do projecto (residência artística, apresentações públicas e exposição):


2. Notas de Vered Dror sobre o projecto:

Souvenirs de Carmella
(Reflexões sobre a Judia errante)
por Vered Dror

Carmella apareceu um dia, exactamente como ela é hoje, com um nome e uma atitude.

Carmella é uma emigrante Israelita, uma vendedora ambulante que atravessa lugares, encontra habitantes locais, tira fotos e a partir dos materiais que reúne cria souvenirs, memórias concentradas – postais, imanes, porta-chaves, colares etc. Carmella aparece em todos os souvenirs que ela cria. Depois retorna ao centro da localidade para vender os souvenirs à população local pelo preço de uma canção (Portuguesa, neste caso) por cada souvenir.

Toda a comunicação – encontrar as pessoas, pedir-lhes para tirar fotos e vender os souvenirs, é feita apenas em Hebraico.

Souvenirs de Carmella” fala da necessidade de se ser compreendido na sua própria língua; da possibilidade de comunicar sem existir uma língua comum com o interlocutor; do papel do estrangeiro entrando numa sociedade diferente, pedindo atenção e reconhecimento em relação à sua cultura, dizendo ‘ Faço parte deste lugar tal como vocês’.

De muitas formas Carmella representa o que sou, assim como a minha relação com a Europa. Vinda de um lugar (Israel) que muitas vezes parece não ser mais do que fronteiras, tenho muitas vezes a necessidade de sair para um espaço mais livre. Neste sentido, a Europa funciona para mim como uma Terra Prometida. Não demasiado longe de casa, aberta, cultural, distendida, um lugar onde não se é obrigado a lutar por tudo. Em simultâneo não estou de acordo em colocar-me na posição de “Estrangeiro”. Não quero sentir que alguém me está a fazer um favor, deixando-me ficar, perguntando-me acerca da minha língua, da minha cultural. Como Carmella, quero poder fazer parte e ao mesmo tempo manter a minha dignidade e respeito próprio.

Gostava de dizer algumas coisas sobre a Língua. A palavra hebraica para língua (ou linguagem) é Safa, que também significa “Um limiar”. A nossa língua é um limiar, uma fronteira, uma forma através da qual actuamos e compreendemos o mundo. É a tensão muscular criada pela nossa boca e pelo nosso corpo. A nossa língua são os sons e ressonâncias através das quais nos expressamos neste mundo. A nossa língua-mãe toca a nossa compreensão mais íntima do mundo.

Souvenirs de Carmella” foi criado em dois locais distintos:

1. Nodar: uma pequena aldeia rural de 30 habitantes, no concelho de S. Pedro do Sul. O local da residência artística foi Nodar.

2. Castro Daire: a vila mais próxima de Nodar (a cerca de meia hora de caminho).

O trabalho foi desenvolvido em quarto fases: obtenção das imagens, criação dos souvenirs, venda dos souvenirs e criação do Vídeo final do projecto.

Obtenção das Imagens

Souvenirs de Camella” teve desde o início uma estrutura clara. Não obstante, à medida que se geravam os encontros com as pessoas, muitas decisões tiveram de ser tomadas. O trabalho em Nodar foi basicamente feliz. Como os habitantes conheciam Luís e Rui Costa (da ‘Binaural’ – os organizadores da residência), eles esperavam acções diferentes do habitual na aldeia. As pessoas de Nodar aceitaram a estranheza de Carmella e colaboraram com ela de bom grado.

As pessoas de Castro Daire foram mais desconfiadas em relação a Carmella, muitos pensando que ela os queria enganar. Alguns relacionaram-se com ela pensando que ela era uma imbecil.

Venda dos Souvenirs

A venda em Nodar enquadrou-se numa série de acções artísticas que tiveram lugar na margem do rio, numa tarde de Domingo plena de sol. A atmosfera era segura e feliz. Ainda assim, as pessoas de Nodar, especialmente as mulheres, cooperaram muito mais do que eu esperava. Elas sentiram-se felizes por ‘jogarem’ o ‘jogo’ que eu lhes propus. As mulheres compraram muitos souvenirs ao preço de uma canção Portuguesa por cada souvenir. Um momento maravilhoso aconteceu quando um das mulheres começou a cantar e as restantes a acompanharam. Uma canção dava lugar a uma nova canção e eu senti que aquelas mulheres estavam desejosas por uma oportunidade para poderem cantar de novo, juntas na margem do rio. Um hábito feminino que existiu até há alguns anos atrás, antes de máquinas de lavar e televisores terem entrado em cada casa.

A venda em Castro Daire foi diferente. Carmella foi até lá num dia de mercado. No jardim principal, apenas duas raparigas cantaram canções e todas as restantes estavam desconfiadas.

No próprio mercado, local onde os vendedores já conheciam Carmella quando ela chegou para tirar fotos perante a desconfiança geral, desta vez pareceram felizes em reencontrá-la. A confiança gerada por um reencontro permitiu-lhes uma maior abertura. Uma mulher cantou uma canção, seguida de uma outra para a sua amiga que não sabia cantar. Outra mulher dançou, um homem assobiou e um outro recitou um poema.

A ideia das canções não era clara no início do projecto, tendo-me ocorrido durante o decorrer do trabalho. Queria usar a venda como uma acção de troca, que desencadeasse junto dos compradores uma acção que expusesse as suas memorias privadas. Pensei em dar algumas alternativas, mas a fronteira crucial da língua exigia clareza. Depois de ter ouvido uma mulher cantar, tornou-se claro que canções era aquilo que ira pedir aos compradores.

Foi interessante experienciar a possibilidade de compreensão recíproca sem falar a mesma língua … e de sentir os lugares que são inalcançáveis sem uma língua comum.

A confiança abre e permite a escuta através de mais sentidos do que o ouvido.

Criação do Vídeo

Pretendendo mostrar em simultâneo sentimentos de pertença e de solidão na vida de Carmella, escolhi conceber dois videos correndo em simultâneo num ‘loop’ sem fim.

No ecrã da direita, Carmella é vista a deixar a aldeia, carregando a sua mala de viagem, a mesma que usou para vender os souvenirs. Caminhando devagar pela estrada, subindo a encosta, ela segue até desaparecer da vista, apenas para aparecer de novo a abandonar a aldeia. Uma e outra vez, numa despedida sem fim.

No ecrã da esquerda, Carmella é vista ‘a trabalhar’. Ela está em permanente contacto com pessoas, falando, comunicando, tirando fotos, vendendo os seus souvenirs, ouvindo as canções, despedindo-se, saindo. Também neste vídeo, o ‘loop’ força Carmella a chegar de novo, a comunicar, vender e a despedir-se. Uma e outra vez.

Notas Finais

Agradeço à brava gente de Nodar e de Castro Daire a abertura que concederam a si mesmos.

Agradeço à Binaural o apoio constante e empenhado.

Agradeço a todos os restantes artistas na residência o terem-me ajudado da forma que puderam. O trabalho foi intenso e seria impossível tê-lo feito sozinha.



Vered Dror | Israel

Vered Dror é uma artista visual que utiliza diversos meios, combinando artes performativas. Nasceu em Tel Aviv, estudou e viveu em Jerusalém, tendo regressado recentemente a Tel Aviv. No seu trabalho Vered Dror explora a relação entre a esfera pública e as pessoas privadas actuando na sua vida no âmbito dessa mesma esfera, jogando com as fronteiras entre as duas e com a forma como se ambas se alimentam entre si.

Frequentemente a artista escolhe focar-se em pessoas ‘simples’, cuja vida se desenvolve na fronteira difusa e mutável entre a esfera privada e a esfera sócio-política. A sua identidade é formada e reformada constantemente através de mecanismos de resistência e de aceitação.

Estes temas podem ser encontrado nos seus trabalhos, desde o último “Private Home” no qual estampou graffitis Brielle em 3D nomeando e marcando como “privadas” as áreas de dormir de pessoas sem-abrigo, até “Street Tales” (Neighborhood Projects, Train Theater, Jerusalem, 2006) em que diferentes lugares de um bairro foram renomeados de acordo com histórias privadas e memórias da zona contadas pelos seus habitantes. Em “Balcony Tales” (San Salvario mon Amour, Torino, 2005) os habitantes de um prédio estavam ligados através das suas varandas por fios de roupa estendida e cestos e eram convidados a partilhar memórias, alimentos, etc.[/fusion_builder_column][/fusion_builder_row][/fusion_builder_container]