Descrição do projecto

“MOROLOJA
Uma instalação vídeo de Manuela Barile

“ Chorem, mães que têm crianças
Chorem com uma dor imensa
Que chega até vós pelas folhas do coração
Porque elas vos deixam antes do tempo”.
Lamentação fúnebre de Calimera (LE) – Itália

Num hino a Demetra, Homero disse que quando a sua filha Perséfone foi raptada por Hades, o Deus do submundo…

“Uma dor aguda tomou-lhe o coração e ela rasgou com as próprias mãos o véu que envolvia os seus cabelos divinos. De ambos os ombros arrancou o seu manto escuro e atirou-se como um pássaro selvagem sobre a terra firme e sobre o mar, procurando a sua filha. Mas ninguém lhe queria contar a verdade, nem entre os deuses nem entre os homens mortais; e nem entre os pássaros um verdadeiro mensageiro veio até ela.
Então, durante nove dias a soberana Demetra vagueava pela terra, com tochas acesas nas mãos, encontrava-se tão aflita que nenhuma vez provou a ambrósia e o néctar suave, e nem o seu corpo se lançou nos banhos.

“Moroloja” é uma instalação vídeo de 11min., inspirada no hino a Demetra de Homero. Mostra uma mulher jovem vestida de preto. Ela está sozinha, sentada numa cadeira dentro de uma casa abandonada em Nodar (Portugal). Ela é Demetra, a deusa do grão e da fertilidade. Ela está a sofrer sozinha, porque perdeu a sua filha. Ela está a viver a experiência do luto. Na sua dor, ela é humana e vulnerável.

Depois da imobilidade, começa um ritual de choro e cântico, aquele que evoca os lamentos de luto de Salento, no sul da Puglia, a região Italiana onde a artista nasceu.

Os “Moroloja” são cânticos das “prefiche”, mulheres pagas para se lamentarem durante a vigília do luto da morte de alguém no Salento.

Estas mulheres costumavam cantar músicas aflitivas com mímica violenta e frenética, misturada com choros e gritos. Levavam um lenço branco nas mãos que era sacudido e agitado, criando uma espécie de dança rítmica. Nestes cânticos antigos não existiam quaisquer referências ao conceito Cristão da morte e da ressurreição. Depois da morte, existe apenas a dissolução, a noite escura. Nos cânticos, as referências à morte personificada (Thanatos) e ao prenúncio da Fada que determina o destino eram frequentes.

Os “Moroloja” são cânticos improvisados numa estrutura tradicional; as estrofes estão em “griko” (uma língua derivada do Grego ainda falada em algumas aldeias do Salento) e alternam com estrofes no dialecto local.

Os “Moroloja” eram improvisados e adaptados de acordo com as circunstâncias, das expectativas da audiência, ao género e grau de parentesco que essas mulheres tinham com a pessoa que estava em maior sofrimento.

Ficha Técnica:

Concepção e Realização: Manuela Barile
Música e Interpretação: Manuela Barile
Câmara: Luís Costa
Produção: Binaural
Data de Criação: Novembro 08
Local de Criação: Centro de Residências Artísticas de Nodar (S. Pedro do Sul)
Duração: 11 minutos
Formato: DV