Descrição do projecto

Cidades Sonoras

O espaço urbano das cidades encontra-se, tal como a maioria dos espaços territoriais europeus, sujeito a profundos processos de transformação que operam a múltiplos níveis, os quais muito genericamente poderão ser categorizados em processos de “ganho” e processos de “perda”. A cidade ganha novas formas de reapropriação do espaço público, a cidade ganha terreno a zonas até aqui rurais ou proto-urbanas, a cidade perde sentido de comunidade, a cidade perde sentido de especificidade.

Estas transformações formam uma malha complexa e sobreposta de realidades. Não existe um antes e um depois. As formas antigas de viver a cidade coexistem com novos usos do perímetro urbano, com novas actividades e prioridades, muitas delas ligadas a uma dimensão ociosa.

Uma realidade que abrange todas as dimensões da cidade é a acústica. Quais os sons que a nossa cidade incorpora? Quanto deles já desaparecerem irremediavelmente? Estamos habituados a olhar o mundo que nos rodeia, mas quanto tempo nos dedicamos a escutar a “música” da cidade ? O que podemos aprender acerca da especificidade das comunidades de uma cidade (comunidades espaciais – bairros, comunidades profissionais, etc.) através da dimensão sonora?

Hoje em dia existe uma consciencialização crescente para a necessidade de defender, estudar e documentar o património sonoro, de tal forma que existem estudos de ecologia sonora e algumas áreas geográficas (como a região espanhola da Galiza) incluem a dimensão sonora no âmbito do seu património imaterial autóctone.

A dimensão sonora, funciona como uma poderosa metáfora para a descoberta íntima e pessoal de um local. Ao ligar-se território e som, valoriza-se de forma clara o contexto dentro do qual um determinado som é captado, fugindo a uma abordagem meramente acústica, do “som-em-si-mesmo”. Julgamos que essa subjectividade e ênfase no contexto é necessária devido ao facto de o som (e a prática de “field recordings” em particular) carregar um fardo de ‘objectividade’, de documentação do real, sendo que a subjectividade inerente à captação (escolha do ‘ponto de escuta’ e dos meios tecnológicos de captação) não é provavelmente suficiente para aliviar esse fardo.

Cidades Sonoras é um projecto educativo de mapeamento sonoro de cidades portuguesas. Guiados por monitores, um grupo de participantes oriundos do contexto social/geográfico objecto de documentação irá gravar os sons que segundo os próprios caracterizam melhor a zona, registando as coordenadas geográficas de cada som, a par de outras informações contextualizadoras e de registos fotográficos.

O projecto procura evidenciar a especificidade acústica de cada cidade, não obstante a crescente homogeneização dos espaços urbanos contemporâneos. O projecto é estruturado de forma a estimular tanto a atenção aos pequenos detalhes acústicos da cidade como o contacto inter-geracional em que as vozes da memória da cidade de outros tempos podem assumir um papel determinante.

Esta ligação do projecto a participantes locais e à sua memória da cidade constitui o aspecto determinante do projecto. Ou seja, propõe-se fundamentalmente fornecer ferramentas de percepção e tecnológicas para re-ligar as comunidades aos seus espaços vitais, para fazer despoletar memórias sonoras, quiçá para acrescentar algumas centelhas de auto-estima a quem assistiu a transformações irreversíveis da cidade.

O resultado final da actividade será a criação colectiva de um catálogo de sons mapeado num mapa digital e a sua apresentação pública à cidade/bairro.

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